quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ser e não ser

Publico aqui um pequeno texto que julgo de grande importância. Porém devo agradecer o seu envio ao amigo Daka, colega, geógrafo e professor, que, como é próprio dos professores e amigos, nos faz lembrar de coisas importantes nas horas certas. O texto foi publicado na revista Caros Amigos e é de autoria de Emir Sader, expoente da intelectualidade brasileira:

O que é ser politizado
Emir Sader  (Revista Caros Amigos de abril de 2007)
“Ser politizado é entender como funcionam as relações de poder em cada sociedade e no mundo em geral. É compreender que, por trás das relações de troca no mercado existem relações de exploração. Que, por trás das relações de voto, existem relações de dominação. Que, por trás das relações de informação, há um processo de alienação.
 Ser politizado, no mundo de hoje, significa compreendê-lo no marco das relações capitalistas de acumulação e de exploração. Representa entender o mundo no marco da hegemonia imperial estadunidense, baseada na força militar e na propaganda do modo de vida estadunidense.
Ser politizado é compreender que tudo o que existe foi produzido historicamente, pelas relações entre os homens e o meio em que vivem. Ou melhor, entre os homens, intermediados pelo meio em que vivem. E que, portanto, tudo o que foi construído pelos homens pode ser desconstruído e reconstruído. Que tudo é histórico. Que a própria separação entre sujeito e objeto – que nos aparece como “dada” – é produzida e reproduzida cotidianamente mediante relações econômico-sociais alienadas.
Ser politizado é saber subordinar as contradições menores às estratégicas, saber que as contradições com o capitalismo são sempre também contra o imperialismo, pela fase histórica atual do capitalismo.

E o que é ser despolitizado
Já ser despolitizado é achar que as coisas são como são porque são como são, sempre foram assim e sempre serão. É considerar que as pessoas sempre buscam tirar vantagens e que não têm grandeza para lutar desinteressadamente por um mundo melhor. Que o que diferencia as pessoas é a ambição de melhorar na vida, que a grande maioria não tem jeito mesmo.
Entre o ser politizado e o despolitizado está a alienação, a falta de consciência da relação entre nós e o mundo. Alienar é entregar o que é nosso para outro – como diz a definição jurídica em relação a bens. Ser alienado é não perceber a presença do sujeito no objeto e vice-versa, sua vinculação indissolúvel.
A luta pela emancipação humana é uma luta contra toda forma de exploração, de dominação, de discriminação, mas, antes de tudo e sobretudo, uma luta contra a alienação – condição de todas as outras lutas”.

domingo, 15 de maio de 2011

Revolução Industrial

Compartilho esse pequeno (mas interessante) texto [na verdade apenas parte dele] que pode ser acessado [na íntegra] no site indicado ao final:

A Quarta Revolução Industrial
Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil
O mundo encontra-se no limiar de uma nova revolução industrial, ou melhor, ele já está, de fato, mergulhado nela: trata-se, obviamente, da transformação radical dos processos e produtos de nossa atual civilização industrial por meio da aplicação do infinitamente pequeno às mais diferentes utilidades da vida diária. Essa revolução é bem mais importante, e mais desafiadora, do que aquelas que presidiram ao domínio do homem sobre as forças da natureza nas três revoluções anteriores ou etapas precedentes de progressos materiais e tecnológicos desta nossa civilização industrial.
Com efeito, a primeira revolução industrial, iniciada na Grã-Bretanha há pouco mais de dois séculos, assistiu à transformação da energia em força mecânica, sob a forma de caldeiras e máquinas a vapor, o que redundou, entre outros avanços materiais, no impulso dado às indústrias manufatureiras (com destaque para o setor têxtil) e aos transportes aquaviários e ferroviários.
Já na segunda revolução industrial, um século após, o destaque ficou com a eletricidade e a química, resultando em novos tipos de motores (elétricos e à explosão), em novos materiais e processos inéditos de fabricação, paralelamente ao surgimento das grandes empresas (algumas vezes organizadas em cartéis), do telégrafo sem fio e, logo mais adiante, do rádio, difundindo instantaneamente a informação pelos ares.
A terceira revolução industrial, nossa contemporânea por sua vez, mobilizou circuitos eletrônicos e, logo em seguida, os circuitos integrados, os famosos microchips, que transformaram irremediavelmente as formas de comunicação e de informação, com a explosão da internet e do comércio eletrônico e voltada crescentemente para o lazer.
A quarta revolução industrial, na qual estamos ingressando neste momento histórico, mobiliza, fundamentalmente, as ciências da vida, sob a forma da biotecnologia, bem como uma gama multidisciplinar de ciências exatas e cognitivas que responde pelo nome de nanociência. Esta, por sua vez, se confunde praticamente com suas materializações práticas, sob a forma da nanotecnologia. Desde várias décadas, senão há mais de um século, os cientistas tentam domar o infinitamente pequeno, plenamente conscientes de que é ao nível das moléculas, das partículas e dos átomos que se joga parte importante do jogo da vida e da própria composição e funcionamento do infinitamente grande, isto é, do universo. Essa busca resultou em enormes avanços científicos e materiais para a humanidade, assim como no deslanchar de forças que chegaram a ameaçar a própria sobrevivência da civilização sobre o planeta, tanto sob a forma do holocausto nuclear como na perspectiva de uma guerra biológica ou química.
Agora, quando os novos equilíbrios estratégicos e a diminuição das tensões permitida pela relativa convergência de valores e de sistemas econômico-sociais atribuem um sentido positivo às pesquisas científicas nas áreas da energia atômica, dos novos materiais, dos elementos químicos e da biologia, as possibilidades abertas pela inovação tecnológica e pela cooperação internacional nessas áreas de fronteira do conhecimento humano abrem um potencial imenso de realizações, para a humanidade em geral, e também para o Brasil.
(Nota: os grifos são do autor deste blog)
Fonte (acessível em): http://www.espacoacademico.com.br/052/52almeida.htm [15/05/2011]


terça-feira, 10 de maio de 2011

Geografia econômica


As Revoluções Industriais
por Orlando Albani

Uma série de inovações tecnológicas passam a ocorrer no século XVIII, mas 2 merecem ser destacadas: as máquinas modernas que substituíram o trabalho humano, mais rápidas e precisas e a utilização do vapor como fonte de energia para o acionamento das máquinas. Com a invenção da máquina a vapor o carvão se tornaria um mineral estratégico. Estas e outras inovações resultaram na grande transformação que foi a passagem de uma economia agrária e artesanal para outra dominada pela indústria fabril e o maquinismo, enfim, a Revolução Industrial que teve inicio na Inglaterra ao final do século XVIII (1760). Assim, desde 1760 o processo de fabricação de mercadorias já passou por 3 fases que denominamos de Primeira, Segunda e Terceira Revoluções Industriais.

PRIMEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL (1760-1870)
A Primeira Revolução Industrial (RI) tem relação direta com o capitalismo industrial (1760-1870). É nela que surgem as fábricas com máquinas movidas a vapor (o que exigia grandes quantidades de carvão mineral, minério no qual a Inglaterra [país em que se origina a RI e o capitalismo industrial] era rica) e o trabalho assalariado. Vale observar que a lenha ainda seria muito importante, mas que gradualmente perderia destaque tanto pela maior eficiência do carvão como fonte de energia calorífica como pela escassez progressiva da madeira nas ilhas britânicas.  
Deste fato se pode salientar o enorme impacto ambiental que a Revolução causou tanto para a vegetação das ilhas como para a atmosfera. Também vale lembrar que o Reino Unido possui uma área relativamente pequena, apenas cerca de 245.000 km² (Não se considera ai os 70.000 km² da Irlanda que fez parte do Reino Unido entre 1800 e 1949), portanto menor que o território atual do Rio Grande do Sul (cerca de 282.000 km²).
As fábricas agrupavam centenas de trabalhadores ocupados na produção em série de mercadorias. Institui-se uma divisão de classes: os capitalistas (donos de todos os meios de produção e de todo o lucro [ou todo o prejuízo]) e os trabalhadores assalariados (proletários). Surge uma nova sociedade: a sociedade industrial. Da Inglaterra estas transformações se estenderam, de forma desigual, para outros países da Europa continental.
Na Inglaterra a indústria do algodão foi fundamental. 90% da produção era exportada para as colônias inglesas. A maior parte do algodão das fabricas, contudo, saía do sul dos EUA que ainda utilizavam trabalho escravo. O mercado torna-se mundial e passa a integrar e relacionar todos os continentes. Novamente a Inglaterra tem a vantagem de ser uma potência naval com uma importante frota tanto comercial como bélica.
 Com a RI ocorre uma intensa migração para as cidades industriais e intensifica-se o processo de urbanização e o crescimento populacional. A Inglaterra, a “fábrica do mundo”, muito se beneficiou das relações coloniais tanto como mercados para seus produtos industrializados como para a obtenção de matérias-primas, sem esquecer a disponibilidade de carvão mineral em seu próprio solo.
Assim, a Primeira Revolução Industrial será caracterizada pelos seguintes aspectos principais:   
(a)  adoção rápida de inovações técnicas (fiandeira e tear mecânico);
(b)  aumento da produção e barateamento do preço das mercadorias;
(c)   separação entre capital e trabalho;
(d)  modo de produção capitalista;
(e)  predominância da energia fóssil (carvão mineral);
(f)    liberalismo como doutrina econômica;
(g)  concentração da produção em centros urbanos;
(h)  surgimento de um movimento sindicalista.

Obs.: As inovações técnicas também atingiriam o campo e aumentariam a produtividade agrícola, reduzindo a importância dos trabalhadores do campo que, sem trabalho, migravam para as cidades industriais.


SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL (1870-1970)
A primeira revolução industrial resultou em um intenso crescimento da produção mundial de mercadorias e matérias-primas. Em meados do século XIX, quando tem inicio a Segunda Revolução Industrial, a Inglaterra sofre com uma crise de superprodução. Depois, no final do século XIX, uma nova crise atinge diversos países industrializados (incluindo os EUA e a Alemanha) em função de uma queda continua e gradativa dos preços entre 1873 e 1896 (conhecida como A Grande Depressão). 
Assim, no final do século XIX, diante das crises, ocorreu um esforço para a criação de novas tecnologias que aumentassem os lucros, o que acabou ocasionando a Segunda Revolução Industrial a partir de 1870. Ocorreram avanços importantes especialmente no setor de transportes com navios e locomotivas a vapor tornando o transporte de mercadorias mais rápido. Outros avanços ocorreram, mas desta feita os países que lideraram esse processo foram a Alemanha e os Estados Unidos (EUA).
Ciência e capitalismo se unem no desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias que aumentassem a produção e auxiliassem o processo de acumulação de capital. [1] Considera-se ter sido a Alemanha que deu inicio à incorporação da ciência aos empreendimentos capitalistas. Destacam-se os avanços em quatro campos fundamentais: eletricidade, aço e concreto armado, petróleo e química e motor a explosão. A essa última invenção associa-se o desenvolvimento da indústria automobilística, que seria fundamental nas primeiras décadas do século XX (e na qual teria origem o fordismo).
Deste modo, a Segunda Revolução Industrial pode ser caracterizada pelos seguintes aspectos principais:
(a)  Ciência e Capital (capitalistas) unem-se em prol do desenvolvimento tecnológico (voltado para a obtenção de maiores lucros);
(b)  Produção concentrada em empresas cada vez maiores com a formação de trustes, cartéis  e holdings;
(c)   Fusão do capital industrial e do capital financeiro formando sociedades, originando o chamado Capitalismo Financeiro;
(d)  Papel crescente dos Bancos (agentes financiadores da produção) e das Bolsas de Valores (os fluxos [“exportações”] internacionais de capital passam a ter grande importância, diferentemente da Primeira Revolução Industrial onde a exportação de mercadorias era o mais importante)
(e)  As grandes empresas monopolistas dos países industrializados (daí essa fase do capitalismo também ser denominada de Capitalismo Financeiro e Monopolista[2]), associadas a Estados (que lhes davam garantias econômicas e, por vezes, militares), partem, no final do século XIX, para uma divisão dos mercados e, seqüencialmente, para uma nova partilha colonial, o IMPERIALISMO, que se materializou territorialmente na Congresso de Berlim (1885) e na partilha da África, empreendimento em que Inglaterra e França levaram clara vantagem sobre a Alemanha, sendo esse um dos fatores que levaram à Primeira Guerra Mundial.
(f)    Liberalismo econômico até 1933 quando desenvolve-se o Keynesianismo (que se torna a doutrina econômica da maioria dos países desenvolvidos até a década de 1970).
(g)  A partir de 1945 (com o final da segunda Guerra Mundial) ocorre uma transnacionalização da empresas (especialmente dos EUA) com a implantação de filiais de empresas norte-americanas (estadunidenses) em países da Europa e do Terceiro Mundo.
(h)  No inicio do século XX, a sociedade do automóvel e de consumo.


TERCEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL (1970 ATÉ OS DIAS ATUAIS) ou REVOLUÇÃO TÉCNICO-CIENTÍFICA
A Terceira Revolução Industrial (RI) está associada à globalização econômica e financeira e ocorreu marcadamente a partir da segunda metade do século XX mas especialmente a partir da década de 1970. No período entre 1945 e 1970, no seio da guerra fria (EUA x URSS), diversas tecnologias – muitas delas tendo sido criadas no âmbito da corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS – ganharam uso civil. São muitas as inovações tecnológicas que resultaram na Terceira Revolução Industrial e na chamada globalização: inovações nos setores farmacêutico e químico; novos fertilizantes agrícolas; aviões a jato; satélites; computadores; internet; telefonia celular, entre outras. Todas elas tiveram ampla difusão por todo o planeta.
O keynesianismo (Estado de Bem-estar Social) dá lugar ao Neoliberalismo, doutrina econômica hegemônica na atualidade na maioria dos países do mundo. A partir do Japão surge um novo tipo de organização do trabalho e da produção: o toyotismo (just-in-time, “primeiro vender para depois fabricar”, reduzindo custos e diminuindo estoques), que substituiria o fordismo da Segunda Revolução Industrial.
A expansão das multinacionais e a internacionalização da produção (fragmentação da produção), ocorrida a partir de 1945, ganha novo estímulo com os grandes avanços nas áreas de transportes, comunicação e transmissão de informações, em especial com o advento da internet. A partir dos anos 1970 e 1980 a localização das unidades produtivas (fábricas e montadoras) perde importância pelas facilidades (e barateamento) dos transportes e da comunicação. Surge o mercado efetivamente mundial, globalizado, que funciona 24 horas por dia. Há grande desenvolvimento nas áreas de robótica, biotecnologia e informática. Nas grandes indústrias high-tec a robotização é a norma. Ocorre uma nova onda de fusões e incorporações de empresas. As empresas tornam-se globais, de atuação planetária. É a globalização. Deve-se notar que se por um lado o desenvolvimento de novas tecnologias torna o trabalho mais produtivo e aumenta a produtividade, por outro pode causar desigualdades, aumento da pobreza e desemprego.
Alguns países subdesenvolvidos (especialmente na América Latina e Ásia) se industrializam e assim se constitui uma nova DIT (divisão internacional do trabalho). Muitos países, no entanto, tem uma industrialização dependente tecnologicamente, o que aumenta as desigualdades internas e externas. Nesta nova fase do processo de industrialização, e do capitalismo, a localização espacial das fábricas parece por vezes irrelevante e assim sua localização ocorre em função dos menores custos de produção. É assim que, na atualidade, mesmo empresas brasileiras estão se transferindo para a Ásia (China ou Índia)  e causando desemprego no Brasil.
Deste modo, a Terceira Revolução Industrial pode ser caracterizada pelos seguintes aspectos principais:
(a)  Grande desenvolvimento tecnológico (robótica, informática);
(b)  Barateamento dos transportes e da comunicação;
(c)   Transnacionalização e fragmentação (internacionalização) da produção de mercadorias;
(d)  Mercado global; Nova DIT;
(e)  Neoliberalismo;
(f)    Toyotismo;
(g)  Capitalismo financeiro globalizado; crescimento exponencial da especulação financeira (mundialização financeira). A especulação financeira parece tornar-se mais importante que a atividade produtiva. Todas as grandes empresas destinam grande quantidade de capital à especulação nas Bolsas de Valores de todo o mundo.

Por fim, não devemos deixar de ressaltar as crises que são relativas ao período entre 1970 e os dias atuais: as crises do petróleo (1973, 1979, 2007, 2011 (barril acima dos US$ 100,00) e a crise ecológica que se arrasta desde os anos 1980. Também convém lembrar-se da “questão” China (o 3° PIB mundial em 2010), cujo crescimento assombroso desde os anos 1990 vem, interessantemente, afetando/transformando o mercado mundial. Mas esse já é um assunto para outro momento.



[1] Lembrar que o capitalismo é “um sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção (terras, máquinas e outros equipamento indispensável para a fabricação de mercadorias) e na organização da produção visando o lucro e empregando trabalho assalariado.
[2] Apesar dos Estados serem liberais. As empresas capitalistas são monopolistas pois é a situação mais vantajosa possível, isto é, dominar completamente um mercado. Contudo seus Estados (os países em que tais empresas têm sede) devem ser liberais e promover o “livre-comércio”, isto é,  devem trabalhar (inclusive por meio da guerra se necessário) para que empresas de outros países não obtenha monopólios.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Construir hidrelétricas?
Prof. Ms. Orlando Albani de Carvalho

Para o pesquisador italiano Umberto Galimberti um dos problemas da atualidade (ou da modernidade) é o dissídio entre a técnica e a ética, entre o que se pode fazer (objeto da técnica) e o que se deve fazer (objeto da ética). A razão - técnica - só tem competência, conforme Galimberti, sobre o que se pode fazer; o problema está em "ver como se consegue impedir de fazer aquilo que é possível através da técnica", uma vez que, de acordo com o mesmo autor, "as técnicas exigem o seu uso". Galimberti é autor de Psiche e techne: o homem na idade da técnica (São Paulo: Paulus, 2006). Nesta obra Galimberti faz uma longa análise filosófica da técnica. O tema é importante, o que também foi salientado pelo geógrafo Milton Santos em seu livro "A natureza do espaço. Técnica e tempo, razão e emoção (São Paulo: Hucitec, 1997, v. cap.1): "O enfoque das técnicas pode tornar-se fundamental quando se trata de enfrentar essa questão escorregadia das relações entre o tempo e o espaço em geografia." Assim, sob vários aspectos, é fundamental que se pense a técnica. Na vida quotidiana atual existe certa banalização da técnica e das tecnologias de tão introduzidas que estão em nosso ambiente. Usamos as técnicas (e tecnologias) sem nenhuma reflexão a seu respeito (cf. Kosik, K. Dialética do concreto. São Paulo: Paz e Terra, 1995). Quando acionamos um interruptor de luz obviamente não pensamos na origem da eletricidade que estamos utilizando. Mas deveríamos. No caso do Brasil, cerca de 90% da eletricidade têm origem em hidrelétricas, obras que causam, como se sabe, grandes danos socioambientais, desde o desmatamento de grandes áreas de vegetação (a construção de apenas 3 usinas hidrelétricas na região amazônica, Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, com o objetivo de produzir energia para a região sul-sudeste, em especial São Paulo, deverão causar a inundação de cerca de 93 mil hectares de floresta amazônica) até os deslocamentos compulsórios das populações ribeirinhas. Apesar da discussão em torno da implantação de barragens e grandes hidrelétricas ter aumentado bastante, ainda não é suficiente. Apesar de possível, seria realmente adequado construir barragens e hidrelétricas na Amazônia? Nossa civilização, que preza tanto a razão, terá pesado todas as possibilidades? Não seriam possíveis outras técnicas de geração de energia? Não existem alternativas para uma civilização capaz de levar um homem à Lua e que almeja em breve levar um até Marte? É realmente indispensável construir hidrelétricas na Amazônia? Ou mais uma vez as técnicas - e o poder do capital e do lucro - exigiram seu uso e ponto final?

Nossa única Terra

"O que você vai fazer com o que você sabe?"

Conhecer a realidade

"A primeira condição para mudar a realidade é conhecê-la" (Eduardo Galeano)

FOOTPRINT

Reproduzimos a seguir um interessante texto explicativo sobre a pegada ecológica global:

Pegada Ecológica (Footprint)

A Pegada Ecológica (footprint) calcula a pressão do ser humano sobre o planeta, medindo a rapidez com que consumimos recursos naturais e produzimos resíduos, em comparação com a capacidade do planeta de absorver esses resíduos e gerar novos recursos – denominada de biocapacidade.
Os dados mais recentes, de 2006, sobre a biocapacidade do planeta apontam para 2,1 hectares por pessoa, enquanto nosso consumo já é de 2,7 hectares por pessoa. Isso quer dizer que estamos consumindo cerca de 1,4 planeta e que a Terra precisa de 16 meses para repor o que usamos em 12. Se continuarmos com um modelo de desenvolvimento como o que temos atualmente, em 2050, quando se estima que seremos 9 bilhões de habitantes, teremos uma dívida ecológica de 24 meses, e ainda não se tem certeza se o planeta, de fato, aguentaria uma pressão deste tamanho.
Vale considerar que estamos falando apenas de uma entre as 1,4 milhões de espécies existentes. Ou seja, não adianta apenas calcular qual é a biocapacidade da Terra e o quanto podemos consumir. Há que se pensar sobre o quanto de biodiversidade estamos dispostos a conservar. Jennifer Mitchel, diretora da Global Footprint Network, diz que se trata de uma decisão sobre em que tipo de mundo queremos viver. Isso sem contar que ainda será necessário deixar recursos suficientes para as gerações futuras (princípio da sustentabilidade).
A chamada Pegada de Carbono corresponde à metade da Pegada Ecológica e é o componente que cresce mais rapidamente. E é onde podemos atuar de maneira mais intensiva para diminuir a sobrecarga sobre o planeta. Até porque, o aumento de temperatura da Terra pode diminuir ainda mais o acesso a recursos naturais.
A pegada ecológica de cada país é calculada a partir de mais de 5 mil dados reportados pelos próprios países à ONU. “É uma medida conservadora, com a sobreestimação da biocapacidade dos países e uma subestimação do consumo”, admite Jennifer Mitchel.
Hoje, os Emirados Árabes são o país que tem a maior pegada ecológica do mundo, consomem 9,6 hectares globais por pessoa. Os Estados Unidos vêem em segundo lugar, com 9,4 hectares globais por pessoa. Se todos os habitantes do planeta tivessem o mesmo estilo de vida que os americanos, seriam necessários 4,5 planetas para suprir todo o consumo.
A biocapacidade brasileira é a segunda maior do planeta – 7,3 hectares/pessoa, atrás apenas dos EUA. No entanto, a pegada ecológica do Brasil é de 2,4 hectares por pessoa. Isso quer dizer que consumimos menos do que nosso país tem capacidade de gerar, mas, em termos globais, superamos a biocapacidade do planeta que é de 2,1. A China, por outro lado, tem apenas 0,9 hectares de biocapacidade, mas consome 2,1 hectares/pessoa. Ou seja, os chineses estão na média do que o planeta pode aguentar, mas não suprem os recursos que consomem em seu próprio território.
Ao longo do tempo, um país pode conseguir reduzir sua pegada ecológica e isso não implica em prejuízos para seu desenvolvimento socioeconômico. O Brasil faz esse caminho. Em 1977, nossa pegada era de 2,8 hectares globais por pessoa e nosso IDH de 0,66. Dez anos depois, havíamos diminuído a pegada para 2,6, enquanto o IDH crescia para 0,71. Os dados de 2006 apontam uma pegada ecológica de 2,4 e um IDH de 0,8. Outro exemplo disso é a Europa, que tem um IDH tão alto quanto o dos EUA e, no entanto, metade da pegada de um americano (Ou seja: os europeus tem o mesmo padrão de vida de um estadunidense porém utilizando menos recursos naturais).
Em uma escala IDH x Pegada Ecológica, realizada pela Global Footprint Network, Cuba é o país mais sustentável do mundo, ou seja, tem um IDH alto e uma baixa Pegada Ecológica.
A ferramenta, é claro, tem suas limitações. A Pegada Ecológica só mede os recursos naturais renováveis a cada ano e que estão na superfície do planeta, não mede água e nem recursos minerais. Também não faz distinção entre uma área de floresta e outra utilizada pela agricultura. O que significa que se uma região for desmatada para o plantio de soja, por exemplo, isso não será contemplado.
Os esforços da Global Footprint Network são para que todos os seres humanos satisfaçam suas necessidades usando um planeta apenas, afinal, é exatamente isso que temos. Para tanto, além de inovação tecnológica e investimento de recursos financeiros, será necessário também mudar hábitos de consumo e reduzir o crescimento da população.
Daqui pra frente, cada vez mais, será impossível não considerar a limitação de nossos recursos naturais na tomada de qualquer decisão que envolva o consumo destes