segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A realidade

"A primeira condição para mudar a realidade é conhecê-la" (Eduardo Galeano)

Não nos basta ser carne

"A verdadeira natureza do homem é não ter nenhuma", isto é, a natureza específica do homem é uma segunda natureza criada por ele e para ele. Somos uma espécie por demais pretenciosa: desejamos dominar a natureza (mais que compreendê-la... o que é uma pretensão enorme). Pior que isso: não apenas queremos dominá-la: queremos (re)criar a natureza mais que perfeita: a natureza técnica. Não admitimos não sermos deuses. Não aceitamos ser apenas carne que um dia apodrece. Assim não é de dúvidar que um dia o homem queira criar o homem perfeito, o super-homem, o homem maquínico, o homem que é mais que o próprio homem. Quem será o deus então? O Homem ou a Máquina?

sábado, 23 de outubro de 2010

Homem-máquina

Seremos nós, no futuro, as próteses orgânicas das máquinas?
Orlando Albani de Carvalho - Professor [Geografia]


As técnicas e as tecnologias desenvolvidas pelo homem sempre objetivaram a adequação da natureza às necessidades humanas. As técnicas são tão antigas quanto a humanidade. Mas o olhar técnico sempre se voltou para a natureza exterior, fora do homem. Hoje, no século XXI, a humanidade atingiu a possibilidade de não apenas transformar a natureza exterior, mas também o próprio corpo do homem. Depois de ter criado uma segunda natureza por meio de uma série de artificializações do espaço, chegou a hora do homem artificial, do homem-máquina. Já não vivemos mais sem uma série de próteses a um bom tempo. O computador é uma destas próteses sem as quais já não nos imaginamos sem. A técnica, que já tornou-se o nosso meio, agora se volta para o próprio homem. Já somos, de certo modo, maquínicos (pense na sua inseparabilidade de certas máquinas: o carro, o celular, o computador).  Como será o futuro? Que novas próteses surgirão? Ou nos tornaremos (NÓS!) as próteses orgânicas das máquinas? Com Freud não devemos esquecer que jamais dominaremos completamente a natureza (sem dúvida uma frustração para a humanidade e especialmente para o capitalismo). A economia globalizada, capitalista e neoliberal (e irresponsável [para não dizer criminosa] com as gerações futuras), baseada na utilização maciça de energia e outros recursos naturais em quantidades crescentes (como pretendem que sejam os lucros dos capitalistas [sempre maiores!]), em níveis que podem chegar a esgotar a capacidade de resiliência do planeta, colocou-nos, possivelmente, em uma situação sem retorno: o aquecimento global e as mudanças climáticas, de consequências imprevisíveis, especialmente para os menos adaptáveis, os pobres dos países subdesenvolvidos. A natureza não é coisa que se possa querer dominar. 

Velha roupa colorida

Visual novo! E...?

Energia

Energia nuclear livre de emissões de dióxido de carbono? Muito pelo contrário.

Greenpeace

Nos últimos tempos virou moda dizer que a solução para o aquecimento global é promover a geração de energia por usinas nucleares. Elas seriam, segundo seus defensores, livres de emissões de gases do efeito estufa e assim poderiam ajudar no combate às mudanças climáticas. Balela. As usinas atômicas podem até ser menos poluentes do que usinas a carvão mineral ou óleo combustível, mas Angra 3 por exemplo tem um índice de emissões indiretas de gás carbônico (CO2) cinco vezes mais alto do que a energia solar fotovoltáica (solar) e eólica.
Os dados constam do novo relatório do Greenpeace intitulado Cortina de Fumaça: emissões de CO2 e outros impactos da energia nuclear, que foi lançado nesta segunda-feira no Rio de Janeiro durante audiência pública do processo de licenciamento ambiental de Angra 3, realizada no Centro de Convenções Cidade Nova. Ativistas do Greenpeace protestaram no local, com latões amarelos simulando tonéis de lixo nuclear e uma faixa com a mensagem: "Angra 3 = lixo nuclear".
Para calcular as emissões de CO2 de Angra 3, o Greenpeace analisou o ciclo completo da energia nuclear no Brasil, considerando as seguintes etapas: extração de minério de urânio, fabricação de combustível nuclear, transporte de combustível, construção da infra-estrutura da usina, gerenciamento de rejeitos radioativos e descomissionamento da usina ao fim de sua vida útil.
De acordo com o estudo, as emissões de CO2 de Angra 3 comprovam a ineficácia da energia nuclear na mitigação das mudanças climáticas e mostram que investir nesta opção energética é um desvio caro e perigoso no combate ao aquecimento global. O documento "Cortina de Fumaça" também detalha os outros impactos ambientais da energia nuclear, especialmente o lixo radioativo, problema que continua sem solução em todo o mundo, e o histórico brasileiro de insegurança nuclear.
"Para reduzir sua participação nas mudanças climáticas, o Brasil deveria investir os mais de R$ 7 bilhões necessários para construir Angra 3 no combate aos 75% de emissões nacionais de gases do efeito estufa provenientes do desmatamento e do uso do solo", afirma Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de energia do Greenpeace. "Aliás, R$ 7 bilhões é o valor inicialmente estimado por nove ONGs sociais e ambientais e um grupo de economistas na proposta para zerar o desmatamento da Amazônia até 2015".
Do ponto de vista energético, o engenheiro elétrico Ricardo Baitelo, autor do estudo "Cortina de Fumaça", comenta que o Brasil dispõe de tecnologia e fartos recursos renováveis que inviabilizam a energia nuclear em todos os aspectos.
Para o especialista do Greenpeace, ao se considerar custos, subsídios, longos períodos de construção, riscos de acidentes e questões de segurança inerentes à geração nuclear, chega-se à conclusão de que existem alternativas mais baratas, eficientes e seguras para atender à crescente demanda por energia e proporcionar o desenvolvimento econômico e social do país.
"Com os mais de R$ 7 bilhões previstos para Angra 3, seria possível, por exemplo, construir um parque eólico com o dobro da capacidade da usina nuclear, que é de apenas 1350 MW, sem gerar lixo tóxico e sem o risco de acidentes. O governo Lula poderia ainda buscar inspiração no Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), que com apenas 12% do investimento de Angra 3 (ou R$ 850 milhões), economizou 5.124 MW, ou quatro vezes a capacidade da usina nuclear", explica Baitelo.
"Passados mais de 30 anos da decisão do governo militar de construir a terceira usina nuclear brasileira, Angra 3 é um projeto marcado pelo atraso, pela ilegalidade, pelos altos riscos e por objetivos militares velados", afirma Rebeca Lerer, do Greenpeace. Para ela, a situação se agravou com as declarações feitas recentemente pelo ministro da defesa, Nelson Jobim. Ao participar de evento sobre segurança nacional, Jobim deixou transparecer interesses militares por trás da recente retomada do Programa Nuclear Brasileiro (PNB). "Pode até soar absurdo, mas o uso militar da tecnologia nuclear parece ser uma explicação lógica para a decisão do governo Lula de ressuscitar o PNB, começando com o investimento bilionário de recursos públicos no dinossauro radioativo Angra 3".
Além de expor os impactos ambientais de Angra 3, o Greenpeace está questionando a legalidade da usina na justiça com base em parecer escrito pelo jurista José Afonso da Silva.

Fonte: http://www.lainsignia.org/2007/diciembre/ecol_001.htm - em 31/05/2009 – 00:27h

Furacões e aquecimento global

Aumento de tempestades em cinco bacias oceânicas sugere relação de causa e efeito entre os fenômenos.
por Rubens Junqueira Villela

Recente trabalho sobre a mudança na quantidade, duração e intensidade de ciclones tropicais, em cinco bacias oceânicas e nos últimos 35 anos, de P. J. Webster, J. A. Curry e H-R. Chang, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA), e G. J. Holland, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas dos EUA, publicado na Science de 16 de setembro último, confirma outros estudos que apontavam um crescimento da freqüência de furacões das mais altas intensidades (categorias 4 e 5).
Esse incremento acompanha o progressivo aumento observado na temperatura da água de superfície nos mesmos oceanos. Esse aumento foi da ordem de 0,5ºC, no período 1970-2004, na temporada de furacões. Entretanto, não procura estabelecer relação de causa e efeito - embora a deixe subentendida - entre o aumento de tempestades tropicais e o aquecimento global, tal como sugerida por K. E. Trenberth, por exemplo, mas colocada como especulativa e sujeita a forte controvérsia. O debate parece reativar-se com as trágicas conseqüências do Katrina sobre Nova Orleans e região.
Entre as razões apontadas pelos autores do Georgia Tech e NCAR, que dificultam uma conclusão definitiva sobre o papel do aquecimento global na variação das tempestades tropicais, estão: 1) a variabilidade natural de ano para ano das estatísticas; 2) a interferência de outros fenômenos de grande escala como o El Niño e a Oscilação do Atlântico Norte (NAO); 3) o papel de outros fatores atmosféricos como a variação (cortante) dos ventos com a altitude; 4) a disponibilidade de umidade na média troposfera; 5) a falta de registros climatológicos mais longos; e 6) a falta de melhor entendimento do papel dos furacões na circulação da atmosfera e dos oceanos.
O estudo de Webster e colegas é menos conclusivo quanto à alteração do número e duração dos furacões em geral (a denominação é por eles aplicada a todo tipo de ciclone tropical, independentemente dos nomes regionais). Apenas no Atlântico Norte o aumento de freqüência para todas as categorias ( de 1 a 5) somadas é inequívoco. O argumento a favor de uma relação causal entre incremento na freqüência e intensidade de furacões e aumento da temperatura dos oceanos estaria fundamentado em uma suposta aceleração do ciclo hidrológico surgida através de uma relação não-linear entre a evaporação e a temperatura, já que a formação de furacões exige que a água esteja acima de 26oC. Os modelos de simulação do clima supondo uma duplicação do CO2 na atmosfera resultam em um aumento expressivo do número de ciclones tropicais de categoria severa, mas não de todas as categorias de intensidade.
Uma comparação do número de furacões de categoria 4 e 5 em dois períodos, 1975-1989 e 1990-2004, mostra que no Pacífico Oeste o número aumentou de 85 para 116 (ou de 25% para 41% do total), e no Atlântico Norte, de 16 para 25 (de 20% para 25%).
Em boletim datado de 2 de agosto, o Centro Nacional de Furacões dos EUA previa até mais de cinco grandes furacões no Atlântico Norte, totalizando sete furacões dessa classe na estação (maio a novembro), consideravelmente acima do normal. Entre os fatores favoráveis para isso estaria uma maior atividade dos distúrbios (perturbações atmosféricas que causam trovoadas) na África ocidental. Ali as trovoadas se propagam de leste para oeste e dão origem aos chamados furacões de Cabo Verde, que seguem rumo constante em direção ao Caribe. Ao fim, atravessam uma grande extensão oceânica de águas quentes, onde absorvem mais e mais energia calorífica, até se transformarem, muitos deles, nos monstros tipo Katrina - precisamente um "cabo-verdiano" .
O primeiro furacão a gente nunca esquece... Meu primeiro foi o Hazel em 1954: o olho passou sobre mim em Washington, a capital do EUA, que ficou seis horas sem energia elétrica. Apesar de nossa longa convivência com furacões, parece que eles ainda são um mistério não bem explicado pela ciência. Seja Katrina ou Catarina, a versão brasileira mais "light", os atuais parecem sinalizar, com cada vez mais clareza, e outros indícios, uma mudança climática - e para pior, associada ao aquecimento global.

Rubens Junqueira Villela é meteorologista e professor aposentado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.
Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/furacees_e_aquecimento_global.html [23/10/2009]

Aquecimento global

Primórdios do aquecimento global

Felipe A. P. L. Costa (*)

A queima de hidrocarbonetos - principalmente combustíveis fósseis (carvão mineral, petróleo, gás natural) - é ainda hoje a mais importante fonte de energia a movimentar os negócios em escala planetária. Esse processo resulta na emissão de subprodutos indesejáveis, notadamente o dióxido de carbono, ou gás carbônico. A emissão de dióxido de carbono de origem antropogênica (resultante das atividades humanas) aumentou muito a partir de meados do século 18, com a Revolução Industrial. De lá para cá, a proliferação de máquinas e motores à explosão transformou a queima de combustíveis fósseis em uma quase-necessidade - e, claro, em um negócio bastante lucrativo.
Estima-se hoje que aproximadamente 7,7 gigatoneladas (uma gigatonelada, Gt, equivale a um bilhão de toneladas) de dióxido de carbono (CO2) antropogênico sejam lançadas a cada ano na atmosfera. Desse total, 5,7 Gt derivam da queima de combustíveis fósseis; as 2 Gt restantes provêm do desflorestamento, principalmente em países tropicais, como o Brasil. Para onde vai toda essa fumaça?
Moléculas de dióxido de carbono atmosférico estão constantemente fluindo para a biosfera, os solos e os oceanos. A biota de terra firme, por exemplo, absorve anualmente cerca de 102 Gt de carbono da atmosfera na forma de CO2, devolvendo 50 Gt via respiração e outras 50 Gt via decomposição. Trocas semelhantes ocorrem entre os oceanos e a atmosfera, com um saldo líquido em favor dos oceanos. Se parássemos por aqui, a contabilidade global estaria mais ou menos equilibrada, pois a absorção líquida de carbono por parte da biosfera e dos oceanos é compensada ao longo do tempo pela entrada na atmosfera do dióxido de carbono oriundo da atividade vulcânica.
O problema é que ao longo dos últimos 250 anos a emissão de quantidades crescentes de dióxido de carbono antropogênico passou a desequilibrar os fluxos naturais. Até meados do século 20, no entanto, poucos cientistas levavam a sério a hipótese de que atividades humanas pudessem de fato provocar mudanças na composição química da atmosfera e que estas, por sua vez, seriam capazes de alterar de modo significativo o clima da Terra.
Um dos pioneiros na formulação dessa hipótese foi o químico sueco Svante Arrhenius (1859-1927), laureado com o Nobel de Química em 1903. Tomando como ponto de partida as idéias do matemático e físico francês Jean-Baptiste Fourier (1768-1830), para quem a atmosfera terrestre funcionaria de modo semelhante a uma estufa, mantendo o ar em seu interior aquecido, Arrhenius investigou o que poderia ocorrer com o clima do planeta, caso a concentração de gás carbônico aumentasse. Naquela época, os riscos de um eventual aquecimento global de origem antropogênica soavam como algo muito remoto ou mesmo impossível, e as especulações em torno do assunto permaneceram na obscuridade, mesmo entre cientistas.
Um sinal de mudança ocorreu em 1938, quando o engenheiro e inventor inglês Guy Stewart Callendar (1898-1964) escreveu um artigo relacionando o aumento observado na concentração de CO2 atmosférico com a correspondente escalada na temperatura média do ar. Para a maioria dos especialistas da época, porém, suas conclusões eram precipitadas ou improcedentes. O fato de o vapor d'água ser um componente da atmosfera muito mais abundante do que o dióxido de carbono também fazia com que muitos cientistas creditassem a este último um papel apenas secundário na determinação do efeito estufa. Essa opinião começou a ruir em 1956, quando o físico canadense Gilbert Plass (1921-2004) publicou os resultados de seus estudos sobre a absorção de radiação por substâncias presentes na atmosfera, como o dióxido de carbono.
Foi nesse contexto que, em 1957, Roger Revelle e Hans Suess, ambos do Instituto Scripps de Oceanografia, nos Estados Unidos, publicaram 'Carbon dioxide exchange between the atmosphere and ocean and the question of an increasing atmospheric CO2 during past decades' ('Troca de dióxido de carbono entre a atmosfera e o oceano, e a questão do aumento de CO2 atmosférico em décadas passadas'), que mudou de vez nosso modo de ver a questão. Nesse artigo, veiculado na revista científica Tellus, Revelle e Suess apresentaram pela primeira vez evidências convincentes para descrever e explicar o comportamento em larga escala do dióxido de carbono antropogênico. Em linhas gerais, o que eles fizeram foi revelar como e por que os oceanos - cujo estoque total de carbono (36 mil Gt) é cerca de 50 vezes maior do que o estoque atmosférico (730 Gt) - não seriam um pronto-escoadouro para o excesso de gás carbônico despejado no ar.

UM DADO NOVO
É fato que os oceanos absorvem dióxido de carbono atmosférico (o que, aliás, está produzindo seus próprios efeitos indesejáveis), e isso já era conhecido naquela época. No entanto, o que Revelle e Suess revelaram de novo foi que essa absorção ocorre em um ritmo bem mais lento do que até então se imaginava. Tal descoberta contrariava a opinião de quem acreditava que o excesso de CO2 antropogênico seria prontamente absorvido pelos oceanos.
A explicação proposta por eles para essa lentidão é que há um freio natural (conhecido agora como 'efeito Revelle') que dificulta ou mesmo impede a difusão de moléculas de dióxido de carbono atmosférico na camada superficial dos oceanos. A questão da absorção de CO2 pelos oceanos, vale frisar, costuma ser dividida em duas partes: a difusão do gás nas águas superficiais (processo relativamente rápido, medido em dias ou meses) e a posterior mistura dessas camadas superficiais com o restante da coluna d'água (processo lento, medido em anos ou séculos). A intensidade do fator Revelle varia com as circunstâncias: quando seu valor é alto, a dificuldade de absorção é maior; quando é baixo, a dificuldade é menor.
A conclusão dos autores não poderia ser mais preocupante: se os oceanos não estão absorvendo prontamente o excesso de CO2 antropogênico, a emissão continuada - como, aliás, vem ocorrendo desde então - deverá resultar em um gradativo acúmulo desse gás na atmosfera. Sabendo que o dióxido de carbono é um gás-estufa, um aumento em sua concentração deve intensificar o efeito estufa já exercido pela atmosfera, o que implicaria uma elevação da temperatura média da superfície do planeta. A esse último fenômeno damos o nome de aquecimento global.
Efeito estufa e aquecimento global são termos relacionados, mas não são sinônimos nem deveriam ser confundidos entre si. Efeito estufa é um fenômeno natural, observado em todos os planetas do sistema solar cuja superfície é coberta por uma camada permanente de gases (atmosfera). A composição química da atmosfera, notadamente a concentração de CO2, tem papel decisivo na intensidade do efeito estufa, sendo, contudo, variável de um planeta para outro. O dióxido de carbono é um gás transparente à luz do Sol, mas é capaz de reter o calor (radiação infravermelha) liberado pela superfície terrestre. Assim, quanto maior o teor de CO2, mais intenso deverá ser o efeito estufa exercido pela atmosfera terrestre, o que significa que a temperatura da superfície do planeta será mais elevada. Como a presença de CO2 acentua o efeito estufa, dizemos que ele é um gás-estufa.
A atmosfera de Vênus, por exemplo, é formada essencialmente por dióxido de carbono (96%), o que ajuda a explicar o intenso efeito estufa que resulta em temperaturas de superfície sempre tão elevadas (acima de 350°C). No caso da Terra, ocorre o seguinte: de toda a energia do Sol que atinge o planeta, cerca de 30% são imediatamente refletidos de volta ao espaço, outros 20% são absorvidos por elementos da atmosfera (principalmente moléculas de água) e os 50% restantes alcançam a superfície do planeta (terra firme e oceanos). Desses 50%, uma parte é absorvida e outra é refletida de volta à atmosfera. A maior parte da radiação refletida pela superfície do planeta é absorvida pela atmosfera ou é re-refletida de volta à superfície; apenas uma pequena fração escapa para o espaço. O efeito líquido desse ziguezague da radiação é o aquecimento da atmosfera e da superfície do planeta - daí o nome efeito estufa.
O aquecimento global é a intensificação do efeito estufa, e sua origem estaria relacionada com as emissões de gases-estufa promovidas por atividades humanas ao longo dos últimos 250 anos. Ao contrário do que se imaginava 50 anos atrás, sabemos agora que as emissões antropogênicas podem alterar - de fato, já estão alterando - a composição química da atmosfera. Com isso, mudaremos também seu comportamento, como a capacidade de reter ou refletir radiação. Em resumo, podemos dizer que o processo de aquecimento global é resultado de uma intensificação de origem antropogênica de um mecanismo natural chamado efeito estufa.
A descoberta de Revelle e Suess teve inúmeras repercussões, notadamente a incorporação do aquecimento global à agenda científica. Além disso, suas conclusões estimularam a criação de novas linhas de pesquisas, como as medições diárias da concentração de dióxido de carbono atmosférico, empreendimento que vem sendo conduzido de modo ininterrupto desde aquela época. Graças a esse monitoramento rigoroso, iniciado pelo químico americano Charles Keeling (1928-2005) - ver 'A curva de Keeling', em Ciência Hoje no 219 -, temos hoje um quadro bastante detalhado do que ocorreu com a concentração de dióxido de carbono atmosférico ao longo dos últimos 50 anos. Projeções e análises comparativas permitiram ainda estimar a concentração desse gás em épocas pregressas.
A conclusão geral após todos esses anos de trabalho científico é preocupante. Resta agora saber se os governantes e as agências internacionais terão de fato disposição e capacidade para enfrentar o problema de frente, o que sem dúvida vai exigir a adoção de medidas contrárias aos interesses de empresas poderosas (companhias petrolíferas e a indústria automobilística, por exemplo), que são direta ou indiretamente responsáveis pela emissão de grandes quantidades de dióxido de carbono antropogênico.


(*) Biólogo, meiterer@hotmail.com, autor dos livros Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003) e A curva de Keeling e outros processos invisíveis que afetam a vida na Terra (2006). Este artigo foi originalmente publicado na edição No. 238 (junho de 2007) da revista Ciência Hoje (http://cienciahoje.uol.com.br)  - La Insignia. Brasil, julho de 2007.
Fonte: http://www.lainsignia.org/2007/julio/ecol_001.htm - em 31/05/2009 - 00:29h